O vento guia-me, aconchegante, acompanhado pelas brisas
marinhas como se formassem um só tipo de efeito ainda não conhecido e
pronunciado pelos comuns mortais. O sol bate nas minhas penas e sabe bem, sabe
tão bem. Isto é o que eu chamo de vida, voar sem rumo e sem qualquer tipo de
preocupação a amedrontar-me, apenas tenho fome. Há pouco soube bem aquela
sardinha, estava fresca e apetitosa, já há muito tempo que não saboreava um
pitéu daqueles. Talvez tenha sorte da próxima vez que encontrar outra, se
encontrar. Cada vez tenho mais fome e dificuldade em encontrar alimento. Aquelas
máquinas flutuantes a que eles chamam de barco, ou navio, ou nau, ou embarcação,
ou uma coisa qualquer. Odeio essas máquinas flutuantes, levam o meu alimento e
a cada dia que passa vejo menos. Que fome. Dá para acreditar que há uns dias
atrás vi uma máquina flutuante a libertar um líquido negro viscoso no mar, não
percebi porque eles gostam de fazer isso, já perdi um amigo assim, que sem
saber foi ao encontro desse líquido e ficou todo negro, não conseguiu voar,
libertar-se; morreu. Ah, não gosto de pensar nessas desgraças. Gosto de
apreciar a brisa neste contraste de calor. Mas tenho fome. Acho que ainda não
te contei, também não cheguei a perceber ao certo, ainda hoje não percebo.
Encontrei uma amiga minha deitada numa rocha, aproximei-me para ver se estava
tudo bem com ela. Vi que não se mexia e reparei com mais atenção e vi que em
vez de barriga tinha objetos de diversas cores, não conheço, talvez conheça…
Aproximaram-se alguns, tive medo e voei um pouco para longe mas não queria
deixar a minha amiga com aqueles objetos na barriga. Ouvi a dizerem, ‘olha
aquela gaivota’, não percebi a parte da gaivota, talvez nos conheçam assim,
‘estou a ver filho, está morta, comeu plástico e não conseguiu alimentar-se’
disse outro deles. Olhei novamente para a minha amiga imóvel e caí na
realidade, senti a face molhada, eram os meus olhos a chorar. O mais pequeno
ficou a falar para os dois maiores mas eu não consegui ouvir o que ele dizia.
Enquanto se afastavam de mim ouvi o maior dizer ‘é do lixo que atiram para os oceanos’.
Não percebi. Não conheço bem os oceanos, será que tem daqueles objetos!?
Gostava de lhes perguntar mas os meus pais disseram que não me devia aproximar
deles. Tenho fome. Um dia talvez conheça os oceanos, estou ansioso por isso.
Vou embora. Gosto desta brisa, não há nada melhor, mas tenho fome…31 outubro, 2015
Conversa de gaivota
O vento guia-me, aconchegante, acompanhado pelas brisas
marinhas como se formassem um só tipo de efeito ainda não conhecido e
pronunciado pelos comuns mortais. O sol bate nas minhas penas e sabe bem, sabe
tão bem. Isto é o que eu chamo de vida, voar sem rumo e sem qualquer tipo de
preocupação a amedrontar-me, apenas tenho fome. Há pouco soube bem aquela
sardinha, estava fresca e apetitosa, já há muito tempo que não saboreava um
pitéu daqueles. Talvez tenha sorte da próxima vez que encontrar outra, se
encontrar. Cada vez tenho mais fome e dificuldade em encontrar alimento. Aquelas
máquinas flutuantes a que eles chamam de barco, ou navio, ou nau, ou embarcação,
ou uma coisa qualquer. Odeio essas máquinas flutuantes, levam o meu alimento e
a cada dia que passa vejo menos. Que fome. Dá para acreditar que há uns dias
atrás vi uma máquina flutuante a libertar um líquido negro viscoso no mar, não
percebi porque eles gostam de fazer isso, já perdi um amigo assim, que sem
saber foi ao encontro desse líquido e ficou todo negro, não conseguiu voar,
libertar-se; morreu. Ah, não gosto de pensar nessas desgraças. Gosto de
apreciar a brisa neste contraste de calor. Mas tenho fome. Acho que ainda não
te contei, também não cheguei a perceber ao certo, ainda hoje não percebo.
Encontrei uma amiga minha deitada numa rocha, aproximei-me para ver se estava
tudo bem com ela. Vi que não se mexia e reparei com mais atenção e vi que em
vez de barriga tinha objetos de diversas cores, não conheço, talvez conheça…
Aproximaram-se alguns, tive medo e voei um pouco para longe mas não queria
deixar a minha amiga com aqueles objetos na barriga. Ouvi a dizerem, ‘olha
aquela gaivota’, não percebi a parte da gaivota, talvez nos conheçam assim,
‘estou a ver filho, está morta, comeu plástico e não conseguiu alimentar-se’
disse outro deles. Olhei novamente para a minha amiga imóvel e caí na
realidade, senti a face molhada, eram os meus olhos a chorar. O mais pequeno
ficou a falar para os dois maiores mas eu não consegui ouvir o que ele dizia.
Enquanto se afastavam de mim ouvi o maior dizer ‘é do lixo que atiram para os oceanos’.
Não percebi. Não conheço bem os oceanos, será que tem daqueles objetos!?
Gostava de lhes perguntar mas os meus pais disseram que não me devia aproximar
deles. Tenho fome. Um dia talvez conheça os oceanos, estou ansioso por isso.
Vou embora. Gosto desta brisa, não há nada melhor, mas tenho fome…
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